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Como prever (e fazer) o futuro do mercado editorial

A cada inovação revolucionária no mercado editorial, ranzinzas conservadores maldiziam os novos tempos e profetizavam o fim da 'boa' literatura.


Livros, como não é segredo a ninguém, são magias que aprisionam o tempo e entregam ao leitor a habilidade de caminhar pelo infinito, do passado inimaginável aos futuros improváveis. Sem eles a popularizar a literatura e portabilizar a palavra, talvez sequer teríamos ao nosso redor algo que pudéssemos chamar de civilização, essa construção de crenças e saberes transmitidos de pais a filhos, de sábios a aprendizes, de gentes a gentes, a metamorfosear constantemente ideias em mundos.


Mas essa magia chamada livro, como poucos – principalmente no ultraconservador mercado editorial – parecem entender, também pode ser chamada de “tecnologia”.


Não há nada de novo aí: a tecnologia da literatura existe desde que as primeiras histórias foram rabiscadas nas cavernas; depois em tabuletas cuneiformes; em pergaminhos; em manuscritos copiados por monges; em impressos com a escala dada por Gutenberg.


A cada inovação revolucionária como as exemplificadas acima – que ninguém se engane – ranzinzas conservadores maldiziam os novos tempos e profetizavam o fim da “boa” literatura (qualquer que fosse a definição de qualidade conferida ao longo dos tempos). Mas a “boa” literatura persistia enquanto os críticos de qualquer inovação ficavam inevitavelmente para trás, falidos ou desempregados.


Não estamos em tempos diferentes agora. Pelo contrário, os mesmos pessimistas seguem presentes amaldiçoando as galopantes evoluções tecnológicas pelas quais o livro tem passado, ignorando o fato de que a cada uma delas – da popularização do e-book e do audiolivro às imensas portas abertas aos autores e editoras independentes por meio da impressão sob demanda, para ficarmos apenas em poucos exemplos – teve como resultado apenas o aumento da quantidade de leitores e de leituras por leitor.


E se essa base segue a crescer em todo o mundo, então não há motivos para os profissionais do setor seguirem pregando o apocalipse e o fim dos seus empregos, das suas empresas, das suas funções. A não ser, claro, que eles ceguem-se e, como seus malfadados antecessores, desistam de se adaptar a estas três óbvias e radicais mudanças que estão já a galope.


1. O mundo não é mais feito de geografias; é feito de línguas que se espalham com a força das ondas migratórias


Circule por qualquer grande cidade do mundo – como Lisboa ou Londres, São Paulo ou Hong Kong, por exemplo – e você se deparará com uma Torre de Babel como em nenhum outro momento da humanidade. Seja pela força das guerras e desastres naturais a expulsarem os seus de suas terras originárias, seja pela sagrada busca por uma vida melhor a que todos temos direito, o fato é que a globalização dos nossos tempos desagua em uma proliferação de diferentes idiomas por metro quadrado.


Isso significa que há mercado para praticamente todas as línguas em todos os países, e não apenas para os seus respectivos idiomas oficiais. Com tantos imigrantes espalhados, porque restringir o mercado de massa literário, feito pelo sempre dominante livro impresso, ao idioma-mãe? O inverso também é válido, claro: não há lógica alguma na dificuldade que brasileiros e seus irmãos lusófonos encontram para comprar livros em seu próprio idioma enquanto vivem espalhados pelo mundo.


Há duas adaptações importantíssimas que precisam ser feitas aqui. Primeiro, de ordem contratual: acordos comerciais entre editoras por país, ao invés de por idioma, são um contrassenso, um apego a um mundo pós-medieval que já não existe na prática. E, segundo, abraçar a impressão sob demanda integrada a uma distribuição global via marketplaces é um caminho óbvio para entregar qualquer livro em qualquer lugar – a preços e prazos racionais, claro. A infraestrutura para tal já existe há anos; basta querer.


2. O ChatGPT e seus correlatos vão permear o mercado de serviços editoriais


Recentemente, uma empresa de inteligência artificial chamada Trya.cc foi lançada no Brasil e na Europa. Seu funcionamento é simples: a partir de um briefing escrito e de alguma imagem inspiracional qualquer, seu sistema gera – em instantes – uma imagem única, concebida por um algoritmo, que pode ser utilizada como capa de qualquer livro.


Outros sistemas – seja para revisão de texto, para narração de livros e conversão em formato de áudio ou mesmo para tradução – estão em diferentes estágios de maturidade. Não, a maioria ainda não está pronto para ser utilizado com eficiência… mas parece ingenuidade supor que eles não chegarão lá rapidamente.


O que há de se fazer? Adaptar-se. Até hoje, nenhuma nova tecnologia não trouxe consigo uma infinidade de novas funções e especializações necessárias para operá-la de maneira mais eficiente. Resta aos profissionais do setor investigar, experimentar, ofertar e crescer. Tempos de inovações como os nossos são também tempos de desbravamentos, de descobertas. Ao invés de assustar-se, empolgue-se.


3. A tecnologia nunca é um fim em si só


Quando os e-books começaram e o Kindle ganhou o mundo, a maioria dos editores profetizou o fim do livro impresso. Passada mais de uma década, o mercado de e-books, hoje, perde (enormemente) tanto em relevância quanto em ritmo de crescimento para o impresso.

Há uma lição importante nisso: leitores não lêem livros digitais, impressos ou narrados; leitores lêem histórias.


E é a história, não o seu formato ou a tecnologia que a embarca, que deve permanecer como foco primário do mercado.


Editores, autores e livreiros que buscam o sucesso, portanto, precisam não apenas manter-se abertos à inovação, mas também essencialmente agnósticos, evitando abraçar com sua fé uma tecnologia em detrimento de quaisquer outras.


A fórmula mágica


No fim das contas, há uma fórmula simples para se prever o futuro de qualquer mercado e que, se observada com rigor e frieza, pode garantir o crescimento de qualquer empresa ou profissional:


Futuro = Presente - (Tudo o que não fizer sentido)


Não faz sentido pagar por tiragens grandes sem a certeza da venda. Não faz sentido não vender um livro em todos os locais do mundo onde houver uma mínima demanda – e no formato preferido por cada leitor. Não faz sentido barreiras financeiras (como custos de confecção de capas, de revisões, de narrações) impedirem histórias de serem contadas e autores de construírem suas carreiras. Não faz sentido um livro existir em um único formato se há demanda para todos.


Dá para se perder a conta da quantidade de coisas sem sentido que povoam o mercado editorial. Todas, em mais ou menos tempo, devem cair: este é o futuro.


Ganhará, como sempre, quem apostar no óbvio.


Artigo originalmente publicado em Blog Publishnews


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