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Livro didático digital: o quanto podem contribuir no aprendizado?

Especialistas comentam os benefícios de obras neste formato dentro das escolas, bem como a importância de manter a leitura impressa


Cada vez mais, o mercado editorial tem se pautado em estudos e pesquisas educacionais para produzir conteúdos em formatos que beneficiem os processos de ensino e aprendizagem. Por sua vez, a tecnologia vem permitindo que, além do rigor acadêmico e conceitual, os livros tenham linguagens mais atrativas, mais próximas dos alunos e que tornam o aprendizado mais significativo. É o que acredita a gerente pedagógica da Plataforma par, solução educacional da SOMOS Educação, Talita Fagundes.


Já no entendimento do vice-presidente da Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais (Abrelivros), Ricardo Tavares, a produção de livros digitais no Brasil, especialmente na área da educação, vem recebendo investimentos não só em obras neste formato, como em plataformas de aprendizagem, chamada de AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem). “É onde você tem uma experiência muito mais do que uma leitura em tablets e celulares. Você interage com a plataforma para poder aprender”, comenta.


As editoras têm investido recursos bastante robustos nesse sentido. “O ponto é que o engajamento e a usabilidade dos recursos não têm correspondido à disponibilidade dessas ferramentas. Então, existe bastante oferta nesse lugar, mas o engajamento na educação brasileira, não só no privado, mas especialmente no público, ainda é considerado bastante baixo”, afirma.


Talita explica que os livros digitais em HTML, por exemplo, geralmente contam com OEDs (Objetos Educacionais Digitais) em diferentes formatos (vídeos, jogos, infográficos animados), links e interatividade. Deste modo, a produção de livros digitais tem contado com equipes multidisciplinares (autores, editorial, tecnologia e educacional). “Isso para garantir que os alunos tenham recursos que os possibilitem evoluir em desempenho acadêmico e que sejam, cada vez mais, protagonistas do seu processo de estudo”, complementa.


É possível visualizar um exemplo no portal edocente. Entre as obras disponíveis, está a versão em quadrinhos de “Triste fim de Policarpo Quaresma”, adaptado do romance homônimo de Lima Barreto (1881-1922). O recurso permite que os alunos (indicado para o Ensino Médio) façam análises e reflexões juntamente com o professor.


Alguns indicativos mostram que a produção de livros digitais deve aumentar. Uma projeção da BusinessWire aponta que, até 2026, o mercado global de e-books deve crescer 28% em receitas. Será uma alta anual média de quase 5%. O relatório ainda sinaliza que: “o desenvolvimento técnico e a sofisticação dos dispositivos de leitura, que proporcionam uma experiência semelhante à de um livro real, são os principais fatores que impulsionam o mercado global de e-books”.


Já a última edição da Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro, com ano base em 2022, permite focar em mais desdobramentos. Esse estudo é fruto de uma parceria entre o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e a Câmara Brasileira do Livro (CBL), com apuração da Nielsen BookData. 


A pesquisa sinaliza que quando há a comercialização de uma unidade inteira de e-book ou audiobook, a evolução do faturamento das editoras apresentou um crescimento real de 51% nos últimos quatro anos. Já “Outras Categorias”, a subcategoria de “Bibliotecas Virtuais” teve um aumento real de 123% nos últimos quatro anos. O levantamento também destaca que “Assinaturas” é a subcategoria em que os audiobooks têm maior participação no faturamento das editoras.


Diante deste contexto, o que esse tipo de leitura pode auxiliar na aprendizagem de crianças e adolescentes?


Os diferenciais do digital

Entre os benefícios, Talita destaca que os livros digitais, por toda sua interatividade e multimodalidade, fomentam um maior interesse do aluno pela aprendizagem. Na visão dos estudantes, é muito mais engajador estudar, por exemplo, com um game, com um vídeo ou com um simulador virtual. “Essa multiplicidade de linguagens digitais aproximam as crianças e jovens dos conteúdos e ampliam o desenvolvimento de habilidades, fomentando inclusive o protagonismo e o autoestudo”, complementa.


Do ponto de vista do ensino, o professor que lança mão de livros digitais com todos os seus recursos, tem ferramentas que permitem que sua aula seja cada vez mais rica e carregada de metodologias ativas. “Além disso, o docente passa a ter possibilidades de personalizar o ensino, considerando as especificidades de suas turmas e alunos”, frisa. 


A relevância das obras físicas

A pesquisadora em ciências do cérebro e da mente, Elvira Souza Lima, entende que, após um período em que o livro digital ganhou bastante espaço na educação formal e, também, na literatura, iniciou-se um período de retomada do livro físico. 


Entre suas vantagens, está a formação de memórias dos conteúdos quando comparada à utilização do mesmo texto na tela. “Também contribui para a consolidação de memórias, uma vez que permite a retomada de conteúdos contidos em outros capítulos ou em outras páginas do livro”, diz.


Elvira reforça que neurocientistas têm recomendado que todo o processo de alfabetização e consolidação da apropriação da escrita (durante o equivalente ao nosso Ensino Fundamental 1) seja feito com o livro físico, papel e lápis. “Isto não quer dizer que se deva banir o uso da tecnologia, mas apropriar o seu uso às características do desenvolvimento e funcionamento do cérebro”, pontua.


Do ponto de vista da antropologia, há vários pontos a serem considerados. O livro é visto como um produto cultural que tem um valor simbólico e que é parte integrante da evolução da espécie fundamental no desenvolvimento das ciências e das artes, principalmente após a invenção da imprensa. “A experiência, inclusive tátil, de se ter um livro em mãos e poder folheá-lo tem significados que não vivenciamos com a tela num iPad ou em um celular. Há pesquisas importantes, também, sobre as diferenças que acontecem no cérebro ao se ler um livro em mãos e ao ler o texto em tela”, reforça Elvira. 


O formato híbrido seria o ideal?

O relatório Papel e Digital: Pesquisa sobre a eficácia dos materiais didáticos, elaborado pela International Publishers Association (IPA) e a Norwegian Publishers Association, menciona que pesquisas constantes indicam evidências para uma abordagem híbrida de materiais didáticos. E sinaliza: “…especialmente quando nos defrontamos com a escolha entre os materiais impresso e digital. E a abordagem híbrida, um dos meus focos de pesquisa, requer combinação de elementos de forma intercomplementar e não substitutiva.”


Para Talita, o equilíbrio é o melhor caminho na escola. O modelo híbrido, que soma conteúdos físicos e digitais, tem apresentado maior segurança e qualidade. Para ela, é preciso considerar que há momentos em que o aluno precisa ler e produzir (escrever, calcular, registrar) em um suporte físico. “Mas, há momentos em que a tecnologia, com todas as suas belezas, permite que o aluno, para além da leitura, vivencie uma experiência virtual de simulação ou de laboratório. Permite que o aluno avance em uma trilha gamificada e personalizada de acordo com seu momento de aprendizagem”, comenta.


Cabe aos educadores e especialistas “beber de diferentes fontes”, sejam elas físicas e digitais. “Além de planejar o uso dessas fontes com intencionalidade pedagógica, para garantir um processo de ensino de qualidade e uma aprendizagem significativa”, pontua a gerente pedagógica.


Artigo originalmente publicado em Blog Educação em Pauta


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